segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Tempo

Meu coração escancarado e resoluto
Devagarinho, admite a saudade
Saudade de dias, horas, minutos
Mordidas na orelha e beijos de verdade

Deito-me a sonhar no infeliz travesseiro
Memorando teus olhos, tua boca, apenas
Saio à procura da caneta tinteiro
Registro teus trejeitos em vagos poemas

E lembro-me bem dos planos que vivi
Em outros tempos, pertinho de ti
Café na cama, brigadeiro de panela
Meus dedos em teus lábios, sorriso de aquarela

E o saudosismo que ora me domina
Traz na raiz incautos sentimentos
Torta de limão, doce cheiro de menina
Abraços que ofuscavam a dor de meus lamentos

O tempo pra mim, sonhador, é cruel
lDesbravei os mistérios de outros oceanos
Transitei levemente do inferno ao céu
Traçando as rotas de meu triste desengano

O tempo é pra quem espera
E a hora há de chegar
Só espero que madrugues, coração de manivela...

A carroça não perdoa o passageiro devagar

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Metalinguística

Jornalista é um cara louco
Fala muito e dorme pouco
É um chato impertinente,
Seja ao menos competente!
Perfeccionista e ligeiro
Como as mãos do carpinteiro
Oh, rapaz, que belo furo
Garantiste teu futuro!
Mas atenção, iniciante,
Escolha bem seu informante!
Simplifique o complexo
E decifre o desconexo
Cuidado com as normas de escrita
Oh, rotina maldita!
E, de súbito, instigante...
Oh, labuta desgastante,
Como trazes tal fascínio
A essa droga viciante?
Traz-me um café, Diana,
É tanta tragédia urbana!
Não aguento mais essa vida,
Minha cabeça vai explodir!
Faço o lead, introduzo em seguida...
Quantas colunas devo inserir?
E factual, que diabo é isso?
Ora, rapaz, seja mais preciso!
Anda logo, fecha a matéria!
Acho que tô precisando de férias ...
Só falta o pé para rematar...
Voilá!
Ufa, que dia! Vamos pro bar!
Boa ideia, preciso espairecer
Hoje fico até o amanhecer!
Estou dispensando o lazer...
Mas é fim de semana, cidadão!
Tenho algo importante a fazer...
E o que seria, então?
Escrever, escrever, escrever

terça-feira, 12 de abril de 2011

A Chuva

Acordei tomado pelo frio naquela noite de inverno. Um temporal se abatia sobre a janela do quarto conforme o previsto. Aquela era a noite mais gélida e tenebrosa do ano. Digo isso sem medo de errar. Tinha certeza que não dormiria tão facilmente sentindo os calafrios daquela madrugada. Resolvi levantar. Avancei para o parapeito da janela e fiquei a observar a chuva lá fora. Era uma chuva fina, porém convicta em sua intenção de causar um arrepio na espinha ao mais insensível ser. Imagine então seu impacto sobre mim, um cara tão sensível quanto você, leitor, jamais poderia pensar.

Sim, sempre fui notável pela sensibilidade. Por vezes, era hábil no trato com palavras e mulheres, com natureza e harmonia, com sentimento e amor. No entanto, a chuva, munida de toda sua espontaneidade enquanto fenômeno da natureza, era algo que jamais consegui dominar. Sentia medo ao ver a chuva desfalecer com estrépito diante do parapeito da janela do segundo andar. O medo às vezes inverte o domínio. A chuva domina o homem.

Sempre achei que a chuva encurralava as pessoas em suas casas sem que fosse possível a elas sair do conforto dos lares sem receber uma boa dose de encharco. Encaro os pingos da chuva como golpes desferidos contra o ser humano que ignorou a supremacia do temporal. Esse destemido ente regressaria ao lar completamente molhado e o encharco que ele traria consigo simbolizaria os ferimentos da batalha contra a poderosa natureza. A chuva é o gladiador que esfaqueia com os raios de Zeus, como se chamasse um reforço de tropas para a guerra. A chuva é, por fim, o castigo de Deus para o ser humano que se atreve a dominar a natureza em sua instância mais avançada.

A chuva, contudo, não demonstra de cara seu potencial avassalador sobre a humanidade. Ela espera o momento certo para avisar ao homem que está na hora dele perceber quem é que dita as regras da vida terrena. Ela espera as noites mais sombrias para aparecer da maneira mais fascinante e severa. Nessas noites, apenas o homem que decide desafiar a natureza sai de casa. Sai para a escuridão da noite e se depara com uma batalha infinda contra as forças naturais. Talvez os mais bravos retornem intactos. Foi assim que aprendi a entender a chuva desde que aluguei esta casa numa pequena cidade do interior dos Estados Unidos.

Nesses dois anos e meio que passei morando por aqui, a chuva foi uma constante durante a noite, principalmente no rigoroso inverno. Perdi muitos sonos admirando-a. Por isso, posso lhe assegurar, caro leitor, que a chuva desta noite era diferente. Por isso mesmo, resolvi fazer algo que jamais havia planejado: desafiar o Hércules da natureza. Confesso que essa decisão foi deveras repentina e duvidei por um momento de minha sanidade mental. Mas estava seguro de meus objetivos. Determinado, desci as escadas e cheguei à porta.

Como morava sozinho, já estava acostumado a fazer as coisas por conta própria. Estava confiante, apesar de solitário. Abri a porta de olhos fechados esperando um batalhão inteiro demonstrar sua covardia com ferocidade. Após breves segundos, fui abrindo os olhos para presenciar um pouco do caos...mas nada acontecia. De jaqueta, saí para o jardim e transitei por uns cinco minutos pela rua deserta. Depois disso, retornei. Com grande surpresa, percebi que estava completamente seco. De imediato, atribuí tal fato à impermeabilidade da jaqueta. Ledo engano. A chuva desfere seus golpes apenas nos que ignoram seu potencial. Aqueles que a desvendam e demonstram seu respeito por ela, nada sofrem. O Hércules da natureza, afinal, reconhece a humildade dos homens.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Funk - Cultura ou Apologia?

Outro dia, em plena PUC-Rio, me deparei com um legítimo funkeiro no meio do pilotis destilando toda sua lábia a favor do Funk. Ao ouvir quase meia hora de um discurso bastante civilizado (diferentemente das letras chulas costumeiras), me senti tentado a escrever sobre o tema, já que a polêmica por vezes faz parte da rotina dos blogs, para alavancar audiência e arrecadar comentários. Portanto, não farei uma desfeita com o clichê e aqui vamos nós falar sobre a grande dualidade: Funk - cultura popular ou apologia ao crime e ao sexo?

Pois bem, o rapaz pregava o gênero como uma maneira de produção de cultura das classes inferiores, ideia que contrapõe o que a classe média/alta adulta em geral pensa. Sim, eu digo adulta, pois todos sabem que o Funk se disseminou pelo país entre grande parte dos adolescentes e nem mesmo os degraus sociais foram capazes de conter tal avanço. Pois bem, voltando aos fatos, aquilo tudo, de início, parecia uma tentativa do funkeiro rivalizar com a classe média adulta - a plateia contava com professores e coordenadores de cursos -. No entanto, o respeito falou mais alto que qualquer cantiga promíscua entoada durante o discurso. O MC (perdoem-me, não me recordo o nome), em resumo, defendeu o Funk como uma cultura das comunidades das favelas, ou melhor uma forma de diversão e de entretenimento para essas pessoas, que possuem uma realidade bastante difícil. Indagado sobre a apresentação de um português incorreto nas músicas, o músico afirmou que a mídia deve respeitar o cotidiano dos funkeiros, já que é sabido que a maioria dos moradores das favelas possuem um baixo grau de instrução. Pausa para um batidão e uma água mineral, o assunto mais polêmico tomou conta da palestra.

Tão logo o funkeiro retomou a palavra, houve um pedido para que ele abordasse as questões do sexo e da criminalidade na música. Sem muito hesitar, ele alegou que por mais que a temática não seja a ideal, a cultura deve ser sempre incentivada, pois ela serve de alternativa a caminhos perigosos, como o tráfico de drogas, por exemplo. Além disso, se considerarmos que muitos garotos que seguem o rumo da música conviveram com traficantes passando por suas casas fortemente armados e ainda, mas em uma instância mais abrangente, levarmos em conta que muitos desses traficantes utilizam funkeiros para conseguir ascensão e reconhecimento, são compreensíveis letras com "Rap das Armas", que possui uma legião de nomes de todos os armamentos utilizados pelos chefes do tráfico.

Quanto ao sexo, podemos aplicar a mesma prerrogativa. A alta taxa de natalidade, a baixa utilização de anticoncepcionais e o convívio com pessoas que precisam da venda de seu corpo para conseguir dinheiro para seu sustento, também constituem o cotidiano dos funkeiros nas favelas. Isso explica as abordagens vulgares e sensuais nas músicas comumente tocadas até mesmo em boates da elite carioca. Respondido, tchau e bênção pro MC Cultura. Mas o buraco é mais embaixo.

Não se pode atribuir essas justificativas à temática do Funk e achar que está tudo resolvido. Como ficam nossos adolescentes, cantando por ai melodias mal educadas sem saber que estão tratando a dupla sexo+crime como algo banal? Pode parecer exagero achar que um gênero musical seja capaz de criar tendências em um grupo, mas se relembrarmos a revolução de diversos gêneros musicais, como o Rock'N Roll e todas as suas influências sobre as drogas e o próprio sexo, veremos que é uma opção bastante plausível. Cabe ainda a crítica quanto ao baixo nível das letras, as quais possuem rimas pobres e que, teoricamente poderiam ser feitas por qualquer um que se arriscasse nesse ramo da música. Por sinal esse item traz o último motivo para a não consideração do Funk como cultura: a carência de uma moral educativa e ética.

Dados os dois lados da polêmica, agora sim, podemos discutir quem está com a razão? Os funkeiros, munidos de seu argumento cultural, ou as classes mais abastadas, preocupadas com o impacto do Funk sobre seus filhos? Sinceramente, acho que ambos possuem suas razões, mas, ao mesmo tempo que defendo uma restrição mínima ao Funk dito como "pesado", também preciso lembrar que a audição das pessoas é seletiva para as músicas, logo, se ouve o que se quer ouvir, do mesmo modo que só se influencia quem se deixa influenciar.

Enfim, após um longo e tenebroso inverno, cá estou eu tirando as teias de aranha do teclado. Boa noite a todos, o poeta voltou!